As instituições de ensino serão edtechs

Neste artigo, Thiago Chaer, CEO e cofounder da Future Education, aceleradora de startups especializadas em desenvolver soluções tecnológicas para o setor educacional, traça um panorama do mercado atual e aponta caminhos e recomendações para o mercado Thiago Chaer* Os sistemas educacionais, em todo o mundo, estão enfrentando há uma década, pressão para inovarem seus processos, modelos de aprendizagem, a formação de seus professores e seu modelo de negócio. Considerando as diferenças entre países, culturas e condições socioeconômicas, na média não há, no mundo, escolas e instituições de ensino superior, que estejam mais próximas do modelo de uma startup. O seu legado e a mentalidade dos líderes desfavorecem a agilidade da transformação. Alguns sistemas educacionais, em países desenvolvidos, conseguem algum êxito na implementação de tecnologia no ensino ou na aprendizagem em sala de aula, mas ainda concentram pouco esforço na inovação do seu modelo de negócio, processos administrativos e na relação com os pais e responsáveis. A velocidade da transformação do sistema educacional em qualquer parte do mundo, é determinada pela visão e habilidades dos líderes que estão a frente das instituições. A educação pública pode se valer das mesmas premissas de inovação, substituindo o termo modelo de negócio, por novos modelos de gestão, administração pública e relação entre poderes. De acordo o levantamento da Future Education, em Fevereiro de 2020, no Brasil, haviam aproximadamente 460 startups de educação (EdTech), destas aproximadamente 9% estavam em estágio avançado dos seus modelos de negócio (receita, clientes e modelo de negócio validado). Essas EdTechs atendem centenas de milhares de alunos e professores por mês, suas bases de dados somam milhões de usuários e centenas de indicadores de interação, engajamento e performance. Com base no número de clientes das principais EdTechs brasileiras, estimamos que 6% das 40.641 escolas privadas no Brasil, estejam em um patamar de maturidade adequado para absorver as inovações dessas startups. Quando vamos para o setor público, este número é difícil de mensurar, pois a maioria das EdTechs ainda atua no mercado privado ou no B2C. 1. As diferenças entre modelos de negócio O modelo de negócio de uma startup de educação geralmente envolve a tomada de capital de terceiros, normalmente investidores anjos e fundos de venture capital; o desenvolvimento de um produto tecnológico que absorve a maior parte do capital financeiro e humano; a adoção de metodologias ágeis que requerem a contratação e a formação de talentos especializados; um entendimento profundo sobre a cultura educacional; e, por fim, a capacidade do empreendedor de vencer as barreiras do mercado. A expectativa sobre o modelo de negócio de uma EdTech é que ela tenha uma visão de impacto social e econômico sustentável, visando a transformação do sistema educacional, adotando um modelo bottom-up, tanto na sua gestão como na sua abordagem com o mercado. Já as escolas e IES adotam o modelo top-down de gestão e de relacionamento com fornecedores e parceiros. Esse choque de modelos, gera uma contradição entre a inovação que está disponível e a demanda das escolas e IES por soluções inovadoras. O mercado de escolas e IES é resiliente a crises, o serviço é amplamente entendido pela sociedade como essencial e há uma crescente valorização pela educação e a aprendizagem, no Brasil e no mundo. Já as EdTechs precisam convencer o mercado, clientes e usuários para alcançar o seus objetivos de impacto social e econômico. 2. Foco na experiência do estudante, professor, pais e responsáveis Os conceitos de jornada e experiência são incomuns no mundo da educação e recorrentes no dia a dia de uma startup. A premissa do modelo de negócio de uma startup é do aprimoramento contínuo do produto ou serviço baseado em uma estratégia centrada no cliente. A diferença essencial é que uma mudança no produto ou serviço ocorrerá prioritariamente, mas não só, com base no feedback do cliente e do usuário. Diferente do que ocorre dentro da operação de uma escola ou IES, sendo ela a definir o que, como, porque e quando será ensinado. Neste caso o aluno tem pouco poder de influência na melhoria do produto ou serviço educacional. Porque um aluno de graduação não consegue clicar em um botão na sua área de aluno e se matricular em um curso de pós-graduação, 3-5 meses antes de pegar o seu diploma? Ou ainda, porque não recebeu nenhuma sugestão de curso para continuar a sua aprendizagem? Na educação básica, pais e responsáveis que são os clientes da escola, tem influência direta nesta relação, mas uma experiência limitada e pouco empática. Não existem processos estruturados que garantam a experiência deste público-alvo. O desafio nos próximos 3 a 5 anos será como criar um produto educacional que os pais consigam interagir, participar e contribuir. Atualmente a proposta única de valor da escola para os pais e responsáveis é a aprovação do aluno no final do ano letivo e o diploma. 3. Visão de produto Garantir a aprendizagem não tem só relação com o pedagógico, mas também com o desenho do serviço educacional. Reconhecer que o serviço de ensino pode ser estruturado como um produto poderá trazer benefícios diretos a sustentabilidade e perenidade das escolas e IES em um mundo de extrema incerteza, volatilidade, complexo e ambíguo. A competitividade do setor educacional aumentou na última década trazendo um grande desafio: o conteúdo não é mais um diferencial. O desenho do currículo, as dinâmicas, as ferramentas e a medição e garantia da aprendizagem são a base do modelo de negócio de uma escola ou IES. Também são essenciais os serviços acadêmicos, a experiência do candidato, aluno e do professor no Campus presencial e online. Nos casos das universidades a pesquisa também pode se beneficiar da inovação para melhorar seus processos e a sua entrega para a sociedade. Os diferenciais competitivos das instituições de ensino do futuro serão: garantir a melhor experiência de aprendizagem para o aluno com base em dados e evidências; o desenvolvimento contínuo dos professores; a conexão contínua com múltiplos contextos e culturas; desenvolvimento de lideranças com visão estratégica de futuro; uso intensivo de tecnologia para garantir que a maior parte da sua entrega e da sua operação comece e termine no ambiente digital e online. As EdTechs investem desde o início do seu modelo de negócio em competências de gestão de produto digital com destaque às disciplinas que envolvem a experiência do usuário (UX), aquisição e retenção de clientes. O domínio técnico-cientifico sobre aprendizagem e educação ainda é o ponto fraco das startups de educação. 4. Ciclos rápidos de decisão e baseada em dados Instituições de ensino tem um modelo de decisão com procedimentos ambíguos, onde não há clareza em relação aos problemas e às decisões. As instituições podem não apresentar coerência em relação às situações vivenciadas, visto que os problemas e as soluções são jogados pelos decisores e as decisões resultam do encontro de correntes independentes de problemas, soluções, participantes e situações. Em alguns casos o modelo de decisão é político, como muitas vezes ocorre no setor público, ou mesmo nas secretarias de educação, onde a influência é o fator que determina a decisão. As startups educacionais, imersas em um ecossistema de inovação e apoiadas por práticas modernas de gestão e operação, condicionam-se pelo modelo de decisão orgânica baseada em dados e evidência. Ao menos essa é a realidade das startups que possuem uma operação madura em termos de gestão e governança. A ressalva ficaria para as startups que estão na fase inicial de desenvolvimento, que restringem seu foco na operação e no desenvolvimento do produto, em detrimento, as melhores práticas de gestão e governança, pela finitude dos seus recursos. 5. Liderança, cultura de aprendizagem e visão de futuro Liderança é uma competência-chave para qualquer empresa. Para as que atuam no setor educacional o desafio é construir uma cultura que reconheça o erro como um recurso de incentivo a aprendizagem e não de punição e controle. Máxima que deve valer para gestores, professores e estudantes. As empresas de educação que prosperarão no século XXI serão as que adotarem métodos de liderança baseados na geração de valor para toda a cadeia: estudantes, pais e responsáveis, professores e sociedade. A competência de estratégia e leitura de mercado baseada em dados e evidências é um fator-chave para a perenidade de um negócio educacional. O perfil do aluno muda a cada geração, as competências e habilidades profissionais exigem velocidade de adaptação dos coordenadores e professores e o modelo de negócio das escolas e IES requerem mudanças no modelo mental dos líderes e gestores educacionais. Recomendações É imperativo agir para transformar o modelo de negócio das instituições de ensino e as premissas que definem o que é ensino e o que é aprendizagem. Novos modelos de escolas, mais flexíveis, personalizadas e com operação enxuta e digital precisam ganhar espaço em um contexto como o Brasil, em que os resultados de aprendizagem estão aquém de uma sociedade que precisa urgentemente alavancar o seu capital intelectual e cultural. As instituições precisam construir novas competências e a equipe administrativa e docentes novas habilidades que garantam um futuro próspero e de intenso crescimento do capital humano. Já estamos em dívida com a próxima geração. A sociedade tem um papel fundamental de apoio ao desenvolvimento de novos modelos educacionais, portanto, é nosso dever co-criar soluções educacionais realmente inovadoras que possam evoluir nossa capacidade de gerar bem-estar e qualidade de vida. Se você é gestor de uma escola, IES ou EdTech, invista em aprendizagem, em novas competências e habilidades que transforme a sua forma de pensar e fazer educação. Procure novas referências, revise suas premissas de negócio e de aprendizagem, implemente e erre rápido, desenvolva a autonomia das pessoas para que seus alunos também possam ter autonomia, lidere pelo exemplo da ética para desenvolver líderes capazes de mudar uma sociedade e por fim considere criar contextos multiculturais e étnicos, a verdadeira inovação-transformação só acontece a partir da diversidade de pensamentos e experiências. *CEO e cofounder da Future Education