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Como a escola ajuda a conter a disseminação de fake news?

Investir no letramento digital é a saída para aprender a se manter bem informado, sem consumir nem compartilhar notícias falsas, especialmente durante a pandemia


Neste período de distanciamento social devido à epidemia do novo coronavírus, a sociedade brasileira tem usado muito a internet. Por consequência, WhatsApp e redes sociais. Notícias falsas sobre o Covid-19, tratamentos alternativos e curas milagrosas têm sido disseminadas, causando confusão entre a população.


Um recente estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) analisou denúncias e notícias falsas recebidas pelo aplicativo “Eu Fiscalizo” entre 17 de março e 10 de abril. O resultado mostra que as mídias sociais mais utilizadas para disseminação de fake news sobre o novo coronavírus foram Instagram, Facebook e WhatsApp. De acordo com especialista, uma mostra clara da falta de letramento digital do cidadão brasileiro.


Professor universitário e fellow do programa Educamídia -- programa criado para capacitar professores e engajar a sociedade no processo de educação midiática dos jovens do Instituto Palavra aberta de São Paulo --, Marcio Gonçalves acredita que professores precisam passar por esse tipo de formação, porque nem eles sabem, na maioria dos casos, usar a informação de forma crítica. Na opinião de Gonçalves, os professores deveriam se envolver com as crianças no mundo da informação crítica que está disponível neste momento de pandemia.


"Se os professores enxergassem o espaço digital como um lugar para criticar a informação, no sentido de saber ler a informação, de escrever conteúdo e de participar, ganharíamos uma sociedade bem mais crítica", pontuou. Ainda de acordo com o especialista, é cada vez mais importante ter um bom nível de letramento da informação na hora de dominar uma ferramenta de busca ou de fazer uma curadoria de conteúdo.


"As crianças que estão tendo aulas pela internet deveriam demonstrar esse conhecimento, para entender se a fonte é confiável, se os dados estão bem distribuídos dentro de um gráfico, se a imagem é verdadeira ou foi manipulada. De fato, se os professores estivessem ensinando as crianças a ganhar um letramento digital na web, seria um grande ganho para a formação de um cidadão mais crítico", disse Marcio Gonçalves, criador do projeto Semana da Mídia na Escola.

Um estudo desenvolvido pela global de cibersegurança Kaspersky em parceria com a empresa de pesquisa Corpa mostra que, no Brasil, 62% da população não reconhece uma fake news. Já ao englobar a América Latina, cerca de 70% não sabem identificar ou não têm certeza se conseguem diferenciar se uma notícia na internet é falsa ou verdadeira.


Os dados compõem a campanha de conscientização Iceberg Digital, que buscou analisar a atual situação da segurança dos internautas da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.


A pesquisa ainda mostra que apenas 2% dos latino-americanos consideram as notícias falsas inofensivas. Além disso, quase metade dos brasileiros, 42%, ocasionalmente, questiona o que lê. Os usuários entre 25 e 34 anos são quem mais compartilha notícias falsas em seus perfis e as comentam sem verificar sua veracidade. Os que menos disseminam informações inverídicas são os jovens de 18 a 24 anos.

O diretor-geral do Colégio Marista Arquidiocesano, Carlos Walter Dorlass, explica que não é necessário um olhar apuradíssimo para evitar cair nessa armadilha. Para ele, medidas simples ajudam a perceber quando uma notícia não é verdadeira.


O docente explicou que é importante checar qual o site original da publicação, sua data e se o autor é alguém conhecido do público. “Muitas vezes, a informação é verdadeira, mas pode estar descontextualizada.”


E ainda esclareceu que os professores devem conversar com os pais para que sejam mediadores entre a tecnologia e os filhos, avaliando quando é o momento mais adequado das crianças terem acesso aos equipamentos digitais, como celulares e tablets.


“Os estudantes tem que ser capazes de compreender que suas opiniões pessoais não tornam a notícia verdadeira. Senão ele passará a procurar notícias que corroborem com sua percepção sobre a vida. Isso também vale para os pais”, disse o diretor-geral.


Segundo Carlos Dorlass, é evidente que a “técnica” permite avaliar se uma notícia é falsa ou não. Mas, para ele, a questão é muito mais profunda. “A escola deve estar preocupada em formar cidadãos que tenham empatia, que sejam críticos e que tenham um olhar global sobre as necessidades da sociedade em que vivem”, reforçou.


O professor ressaltou, ainda, a importância da liberdade de imprensa: “Uma sociedade que compreende o valor do bom jornalismo para a democracia não tem o mínimo interesse em boatos. Essa é uma das boas lições que devemos ensinar para nossos alunos”.


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