• Thiago Almeida

Reflexões sobre a personalização da aprendizagem e seus impactos na gestão educacional

Em sua coluna mensal no Educador21,o professor e gestor educacional Thiago Almeida reflete sobre o caminho para a os desafios da personalização da aprendizagem


Toda aprendizagem é personalizada.


A essência do conceito de aprendizagem já pressupõe níveis de personalização que se apresentam como condição básica para a aprendizagem acontecer.


Sem desejo de aprender não existe aprendizagem. E o desejo de aprender, além de individual, também é dependente do grau de significado que o objeto de aprendizagem desperta no aprendiz. Portanto, não há como “padronizar” a aprendizagem se o objetivo é que o indivíduo realmente aprenda. A discussão sobre personalização da aprendizagem nada mais é do que a busca pelo desenvolvimento de mecanismos didático-pedagógicos que permitam modelos de educação formal que facilitem o processo natural da aprendizagem.

A forma como aprendemos nas escolas é antinatural, pois é padronizada, onde todos precisam aprender as mesmas coisas, ao mesmo tempo, no mesmo ritmo e velocidade. Este modelo padronizado deu origem a mecanismos de gestão igualmente padronizados, em que toda a organização do trabalho escolar pressupõe esta sincronia ilusória do processo de aprendizagem, que elimina qualquer possibilidade de dar vida aos interesses particulares dos estudantes.

A forma natural de se aprender é personalizada, pois só aprendemos o que realmente nos interessa, no ritmo, velocidade e estilos que nos trazem conforto, prazer e paixão. É por isso que pessoas expostas a uma mesma aula expositiva apresentarão resultados diferentes de aprendizagem, pois tudo se passa em nível individual, personalizado.

O problema da personalização é que estamos tão acostumados ao modelo padronizado, que não somos capazes de vislumbrar alternativas a ele. Além disso, também compreendemos pouco sobre o que é e como funciona a aprendizagem. Naturalmente, por se tratar de um tema cuja articulação teórica se dá através de imagens metafóricas, uma vez que aprender é algo invisível, não-observável, pode-se compreender as razões desta dificuldade.


Para a implantação da aprendizagem personalizada é necessária uma visão holística do processo de aprendizagem, integrando dimensões cognitivas, sociais e culturais, nas perspectivas tanto dos estudantes quanto dos professores. De certa forma, pode-se enxergar nas teorias contemporâneas da aprendizagem um corpo conceitual que já compreende a aprendizagem como um processo individual e personalizado.


A personalização da aprendizagem não depende de tecnologia (mas pode ser facilitada por ela). Trata-se, antes, de uma perspectiva didática, como a própria história da educação e da filosofia revelam através dos relatos das academias de Aristóteles, Platão e tantos outros filósofos, que construíam experiências personalizadas de aprendizagem para seus estudantes pela pólis.

A personalização pode acontecer em diferentes níveis, de acordo com as possibilidades pedagógicas do projeto de cada instituição. Pode-se pensar em personalizar o conteúdo que o estudante aprenderá, seja na ordem de apresentação, na profundidade ou na perspectiva interdisciplinar; pode-se pensar também na dimensão didática, ou seja, na forma de se aprender, levando-se em conta os estilos de aprendizagem dos aprendizes e as diferentes metodologias direcionadas a cada um.

Uma questão paradoxal permeia a personalização da aprendizagem: se cada um aprende apenas o que desperta desejo e interesse, e a escola é “obrigada” a cumprir um currículo, independente do desejo individual, como conseguir casar estas duas perspectivas?

Para responder ao paradoxo, é necessário compreender que a personalização exige uma nova organização do trabalho escolar. É comum educadores não terem conhecimento de que podem estruturar matrizes curriculares de inúmeras maneiras, assim como organizar o tempo e espaço da escola de diferentes formas, sem necessariamente utilizarem o modelo de disciplinas e aulas. Um exemplo disso são as escolas de projetos.


Ao invés de organizarem o currículo por disciplinas, realizam a estruturação curricular a partir dos projetos, garantindo interdisciplinaridade e protagonismo do estudante, uma vez que este é o responsável por definir a pergunta de projeto e seus artefatos, caracterizando um percurso de personalização.

A adoção de determinadas metodologias ativas também contribui para a personalização. Determinadas técnicas como a aprendizagem baseada em problemas, aprendizagem baseada em desafios e a própria aprendizagem por projetos, permitem que o estudante participe da estruturação de seu próprio processo de estudo e decida, junto com os professores, aquilo que irá aprender.

Naturalmente os desafios da personalização ainda não são todos conhecidos, dado que poucas escolas têm procurado praticar a aprendizagem personalizada. No entanto, cresce a cada ano o volume de publicações científicas sobre o tema, bem como livros e formações docentes. Tudo indica que se trata do início de uma grande e importante tendência, capaz de transformar positivamente nossa educação.


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