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A pandemia e a educação a distância

Membro da Abed e mantenedor do Instituto Monitor, Roberto Palhares defende, neste artigo, que se pare de chamar de Educação a Distância o 'improviso remoto' utilizado durante a pandemia


Roberto Palhares*


A pandemia acabou! Essa afirmação, que parece distante do momento atual, em algum momento será verdade e muitos vão comemorar a volta da normalidade. Mas qual normalidade?


Embora estejamos vivendo um momento de exceção, a vida como ela era não voltará mais e não é porque o vírus continuará entre nós (a vacina é cada vez mais uma realidade), mas porque “a mente, uma vez expandida, nunca mais volta ao seu estado anterior” como disse Einstein.


Se tem alguma coisa boa da pandemia foi obrigar o ser humano a rever hábitos. Entre eles, está a educação a distância. Escolas foram fechadas e alunos de todas as idades foram obrigados, de uma hora para outra, a estudar em casa para cumprir a carga horária do ano letivo. Professores acostumados ao contato com o aluno, mas sem nenhuma vivência com a tecnologia existente se viram obrigados subitamente a se adaptar à nova realidade em frente a uma câmera.


A fim de manter seus recebimentos, as escolas têm prometido aos pais educação. Porém, não é isso que está sendo entregue levando especialistas, pais e meios de comunicação a afirmar que essa "nova forma de ensinar", confundida com Educação a Distância, está se transformando num "apagão educacional".


Uma matéria de abril/2020 do canal TIL do UOL ajuda a entender o que está acontecendo:

  • Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, entidade que representa as instituições de ensino superior no Brasil, afirma que as instituições estão transpondo a aula presencial para um ambiente virtual. "[EAD] não é simplesmente pegar a aula presencial e sair dando aula via plataforma. O ritmo é outro.

  • "Uma das coisas mais importantes da educação é a emancipação. O estudante ganha autonomia. Ele nunca vai ter isso enquanto ficar dependente da inteligência e da explicação do professor", afirma Maltempi, da UNESP.

A verdade é que o que está sendo feito é uma forma improvisada de ensinar que em nada se assemelha à Educação a Distância e as consequências de projetos mal feitos recaem sobre a EAD como um todo, que já sofreu durante anos por conta de uma associação infeliz com baixa qualidade e falta de compromisso (o famoso “estudar por correspondência”).


O próprio site do MEC não ajuda muito a separar o joio do trigo, uma vez que define EAD como “a modalidade educacional na qual alunos e professores estão separados, física ou temporalmente e, por isso, faz-se necessária a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação.”


Essa definição não apenas mistura o que caracteriza a EAD com o que ela é de fato, como limita sua importância e capacidade de atuação. É semelhante a pensar que a Covid-19 é uma doença de isolamento social e a quarentena, a cura. É o tipo de erro que só prolonga as mazelas por tempo indeterminado.


E por que precisamos entender o que significa EAD de verdade? Como dito anteriormente, a Pandemia está demonstrando que serviços online já fazem parte do presente da vida das pessoas e que viver de forma distanciada é um novo estado da sociedade. Quem não entendeu isso não entendeu nada.


A EAD de verdade já existe há mais de 80 anos no Brasil e é uma forma não apenas comprovada de educação, como a que mais cresce e atrai alunos já há alguns anos. Isso ajuda a explicar por que o número matrículas em EAD no ensino superior já ultrapassou o presencial desde 2018. E explica também por que as taxas de crescimento da educação a distância são contínuas enquanto o ensino presencial não para de minguar.

  • Segundo censo realizado pela Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância), divulgado no final de 2019, houve um aumento de 17% em números de alunos matriculados de 2017 para 2018. O levantamento mostra ainda que a região do país com maior concentração de instituições é o Sudeste, que corresponde a 43%. Atualmente, 9 milhões de estudantes optam pela modalidade EAD.

  • “O estudo engloba cursos universitários e cursos livres também”, explica Betina von Staa, coordenadora do Censo EAD, da Associação. “O que observamos é que as instituições têm investido muito em tecnologia; pelos números do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), que avalia os cursos de graduação, os cursos EAD estão no mesmo nível dos presenciais.”

  • Segundo uma outra pesquisa realizada pelo Sagah, as projeções apontam que em 2023, mais alunos estarão matriculados em cursos EAD do que em cursos presenciais e, hoje, o ensino superior a distância no Brasil já chega a 26% do número total de alunos.

A EAD não apenas tornou-se inevitável para uma sociedade globalizada, nômade e conectada, como significa a sobrevivência para muitas instituições e a única forma viável de ensino para uma parcela crescente da sociedade.


Na “nova normalidade”, a definição de Educação a Distância precisa obrigatoriamente incluir a autonomia e o protagonismo do aluno, da mesma forma que permite que a interação aconteça de forma natural e contínua. Na EAD que funciona, conteúdo, ferramentas, forma, interação, aprendizagem e inteligência artificial são componentes indissociáveis e a distância é que passa a ser mero detalhe. Educação a Distância de verdade tem a educação como ponto focal e não apenas como o meio pelo qual acontece.


A pandemia pode acabar, e vai acabar, mas a revolução já aconteceu e a pergunta não é quando ou como adotar a EAD: o foco é quem vai utilizar e de que forma vai aprender. É o foco no benefício final o segredo do sucesso.


Quem não compreende isso vive como os prisioneiros do Mito da Caverna de Platão: têm medo de enxergar a luz e preferem ver o mundo pelas sombras na parede.


*Membro da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância) e mantenedor do Instituto Monitor